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"Louças de Família": servidão doméstica e a genealogia da sobrevivência no romance de Eliane Marques

Atualizado: 2 de mar.

Louças de Família, de Eliane Marques, não é um romance memorialista no sentido convencional. Partindo da morte de tia Eluma e do inventário das despesas do velório, o que se constrói ao longo da narrativa é uma investigação estrutural.


por thaiane machado

Não há como falar de "Amada"*, sem mencionar a trajetória de Toni Morrisson

Publicado em 2023, "Louças de Família", de Eliane Marques, é um romance que transforma memória em estrutura. Narrado por Cuandu, o livro parte da morte de tia Eluma (a doméstica da casa senhorial chamada mid-century) para construir um inventário que não é apenas afetivo, mas histórico. O que se herda não são bens, mas dívidas, gestos repetidos e funções sociais que atravessam gerações. A obra dramatiza a vida de mulheres negras prisioneiras da servidão doméstica herdeira do escravismo, organizando-se como uma verdadeira árvore genealógica da exploração. O romance opera como desmontagem simbólica da casa branca, expondo o que sustenta sua verticalidade.


Na primeira parte, o ponto de partida é a morte de Tia Eluma. O que resta são contas de velório, dívidas parceladas e a precariedade final. A partir daí, Cuandu revisita a vida da tia como doméstica da mid-century, citando as louças da casa, especialmente o “serviço dos pavões”, como um eixo simbólico. A crítica parte da metáfora dos ossos que, se quebrados, desmontam o esqueleto da casa. A metáfora é direta: a casa branca se mantém porque alguém a lustra, a empana, a conserva, sedo, portanto, a Tia Eluma responsável por manter intacta essa estrutura. O trabalho doméstico aparece como manutenção da hierarquia racial, no qual se repete o desgaste e a disciplina.

“Sobrou isto de sua morte. As contas impagas. Luzágua blusas calças saias camisetas jesus também te ama compradas a prazo de uma irmã da igreja, tão pobre quanto convicta da superioridade carola. Coisas pequenas tão enormes para aquelas que as suportam, para as que caram com o dever de pagar, de manter limpo seu retrato. Conta de celular? Não sei, acho que não usava.”

Na segunda parte, o romance mergulha na linhagem. A narrativa assume tom mítico e circular. O rio torna-se símbolo central (água como origem e território), no qual uma ancestral e, ao pisar na “casa de família”, rompe o curso da água. Entretanto, o rio desaparece e a lama permanece. A imagem sintetiza o que ocorre com essas mulheres que são deslocadas da fluidez para o serviço, da natureza para a casa branca. A genealogia materna (Anastácia, Anagilda, Eluma, Alesọ) organiza-se em torno do trabalho doméstico, da cozinha, da lavagem, da conservação. A linhagem paterna está inserida na economia regional da carne: Nube trabalha na picada do charqueamento; tuba sai do frigorífico ensopado de sangue; Shatta é alugada para limpar as casas ligadas ao frigorífico. A palavra “alugada” traduz a ideia do corpo negro que gera renda mediada por terceiros, como se a estrutura colonial reaparece sob forma pós-escravista. O romance nos faz refletir sobre trabalho mudar de nome, mas não da posição racial.


Genealogia materna e paterna

Materna

Paterna

Anastácia (bisa): pertence à geração imediatamente posterior à escravidão. Sua condição histórica é de mulher negra recém-liberta, inserida num mundo que exige adaptação imediata à lógica do trabalho livre. O fato de não conseguir usar sapatos indica a passagem brusca de um regime de cativeiro para um regime de precariedade. A geração dela inaugura a sobrevivência sem terra, sem indenização e sem estrutura.

Nube (trisavó): Representa a ancestral mais remota do lado paterno. Nube chega à “cidade das salgaduras” já marcada pela violência histórica. Ela não trabalha nas tarefas “secundárias” atribuídas às mulheres escravizadas, na picada da carne para o charqueamento, manuseando faca, lidando diretamente com o corte.

Anagilda (abuela / minhavó): Lavadeira, cozinheira, mulher do trabalho pesado. Ela lava no arroio, cozinha para famílias ricas, prepara jantares para centenas de convidados sem ajudante. Sua vida é organizada pelo serviço doméstico da casa branca. É a geração que mantém vínculo com o terreiro, com os orixás, com a memória ancestral.

Redugéria (bisavó): pertencente à geração posterior à chamada “libertação do ventre”, deixando claro que a promessa de liberdade nunca se concretizou. Ela herda a precariedade.

Eluma (Ioiô): Empregada doméstica da “mid-century”. Trabalha dentro da casa branca, cuidando das louças, do serviço dos pavões, dos caprichos da patroa. Sua função é preservar a integridade do patrimônio simbólico da branquitude. O trabalho doméstico torna-se vigilância, silêncio e disciplina. Ela representa a geração que internaliza a lógica da casa branca.

Tuba (avó): trabalha no frigorífico, saindo “ensopapado de sangue no avental alvejado” após a matança das vacas. O frigorífico é a modernização da charqueada. A linhagem paterna continua operando na base dessa cadeia produtiva.

Alesọ (mãe da narradora): Cozinha, faz pastel, sustenta a casa, alisa o cabelo da filha com pente quente. Ela participa da reprodução de padrões de embranquecimento e disciplina. É mulher que sustenta “quaisquer tiranias”, como aponta o romance. Seu trabalho mistura cuidado, opressão e sobrevivência. Ela encarna a mulher que mantém a família funcionando dentro da precariedade.

Shatta (avó): sua condição é mais dura e estrutural, já que ela era alugada. A família que a “criou” alugava seu trabalho para a faxina semanal dos espaços de lazer da classe dominante. A profissão de Shatta pode ser descrita com precisão como trabalhadora doméstica alugada dentro da estrutura empresarial do frigorífico, inserida num regime de exploração que ecoa formas pós-escravistas de apropriação do trabalho negro.


Tia Olma: trabalha na casa da família cuña (ou ligada a esse núcleo), realizando tarefas domésticas. Olma executa trabalho doméstico, portanto, em dois níveis: o casamento (limpeza, cuidado da casa, serviço ao marido) e na casa dos brancos. Eliane também articula essa diferença entre as irmãs com o marcador racial: “tia mais preta” criada para o trabalho dos brancos, enquanto Ebema, “menos preta”, pôde estudar.

A terceira parte concentra-se no corpo da narradora, Cuandu, no qual ela revisita episódios de humilhação, deslocamento e inadequação, sendo o ponto de tensão da genealogia. Ela fala de dentro, como quem carrega as costuras da história na carne. Desde as primeiras páginas, sua posição é ambígua: ao mesmo tempo em que ela sente ausência (não esteve nos últimos dias de Eluma, nem Eluma esteve nos seus), é ela quem recolhe as contas, quem organiza o inventário simbólico da herança. Sua consciência crítica começa com a ideia de que seus ancestrais empanavam, colocando a palavra “empanação” tanto ao preparo do alimento quanto ao encobrimento simbólico. Sua relação com a herança colonial também passa pelo confronto com a religião, ao observar a conversão de Eluma à "igreja dos comensais da mesa de deus". Ela não aceita a narrativa da purificação total e vê na igreja a reencenação de uma nova autoridade, uma segunda submissão. Cuandu fala de seus pés queimados, dos pés chatos da mãe, dos sapatos que não se encaixam. A história da bisavó que comprou sapatos após a abolição e não conseguiu usá-los (carregando-os nos ombros) se relaciona com a ideia da modernidade que não serve. Cuandu reconhece, dessa meneira, que pisa num terreno onde o chão nunca é neutro., em que seus pés carregam o inchaço de tornozelos acorrentados. Com isso, Cuandu não aceita que o pó continue sendo varrido para debaixo do tapete da casa branca.


A luta mais radical de Cuandu ocorre no plano da linguagem. Ao fundir palavras (“minhanalista”, “minhancestra”, “expaimeu”) dissolve fronteiras entre sujeito e herança, com uma forma de insubordinação. Tem-se a impressão que a utilização desse recurso seja uma provocação às estruturas coloniais - já que a ela se reproduz pela língua oficial, a contraposição vem da desorganização. E falando em linguagem, Eliane escreve uma obra profundamente fronteiriça, não apenas porque se situa no extremo sul do Brasil, mas porque faz da fronteira um princípio de linguagem, de memória e de estrutura social. O romance trabalha a experiência negra no sul do país, uma experiência muitas vezes invisibilizada na literatura nacional, que costuma concentrar suas narrativas negras em outros espaços urbanos. É bonito o lirismo ao trazer os nomes dos locais de forma quase enigmática, que acentua a geografia desses locais. Nomes como "país do rio dos pássaros pintados" (Uruguai), "cidade com nome de general" (Rivera/Uruguai), "cidade com nome de ana/santa" (Sant’Ana do Livramento/RS), "cidade com nome do crucificado" (Santa Cruz do Sul/RS), "cidade de açúcar" (Pelotas/RS) e "país das maravilhas" (Brasil), aparecem como simbologias irônicas de um passado que não respeitou o legado da diáspora africana.

“Na adolescência, achava que poderia me desviar da luz que havia projetado para mim se inventasse de contrair a doença do casamento. Talvez tivesse que viver limpando cozinhando lavando, para uma família negra e outra branca, tendo de cuidar de tudo em solidão enquanto o marido, se houvesse, fosse dar uma voltinha de vinte e quatro ou quarenta e oito horas no centro da cidade com nome de ana". 

Um dos pontos que chamam a atenção na escrita é a forma como a autora colocam os nomes masculinos com inicial minúscula, como “tuba”, mesmo a norma culta do português reservando a maiúscula aos nomes próprios, conferindo-lhes estatuto e reconhecimento. Entretanto, ao retirar essa marca gráfica, a narradora diminui simbolicamente o poder masculino, estando muito longe de um descuido tipográfico e sim de um rebaixamento deliberado (a autoridade patriarcal, que historicamente organizou a família, a religião e o Estado, é esvaziada também na gramática). Enquanto isso, os nomes femininos (Anastácia, Anagilda, Alesọ, Eluma, Shatta, Redugéria, Nube) aparecem com densidade sonora e histórica, reforçando a importância dos nomes que sustentam linhagem, corpo e memória.

 

Ainda sobre a linguagem, ou melhor, estilo linguístico, Eliane traz um texto recheado de misturas de idiomas. A língua do livro é atravessada por português popular e erudito, termos de origem africana, espanhol da fronteira, referências bíblicas, nomes científicos em latim, mitologia grega etc. Num país que construiu sua identidade sobre a ideia de pureza (racial e cultural), a linguagem do romance recusa qualquer purificação. Ao contrário, é híbrida, contaminada e fronteiriça. Isso também pode ser visto no diálogo com outras obras, mitos e narrativas. A mitologia grega, a Bíblia, o samba-enredo, a história da Companhia das Índias, referências científicas e culturais aparecem incorporadas ao fluxo narrativo. Ao recontar, por exemplo, o mito de Europa destacando a ambiguidade entre amor e estupro, a narradora desmonta a romantização da origem europeia. Já, ao evocar o juízo final bíblico para falar de separação e exclusão, ela revela como discursos religiosos legitimaram hierarquias. Sem falar quando ela menciona Baco, misturando mitologia e alcoolismo, divindade e decadência, características presentes em suas estruturas familiares.


Dessa maneira, em "Louças de Família", a herança colonial não é evocada como pano de fundo histórico, mas como estrutura que organiza o presente. O romance desmonta a narrativa confortável segundo a qual a abolição teria encerrado a lógica escravista. O que se revela é que a escravidão não desaparece. A casa de família é a senzala, preservando uma arquitetura moral. A hierarquia racial continua operando, agora sob a aparência da intimidade doméstica, da caridade patronal e do vínculo afetivo. A casa branca é o poder, onde se articulam propriedade e prestígio. A porcelana fina chega às mesas das famílias brancas pelo mesmo sistema que arrancou mulheres negras de seus territórios. É nesse ponto que o romance se torna mais incisivo, pois ele recusa qualquer romantização da servidão doméstica. A domesticidade não aparece como vocação ou destino naturalizado e sim como engrenagem de manutenção da desigualdade. A patroa pode ser bondosa, pode doar restos, pode elogiar a dedicação da empregada, mas a assimetria permanece intacta. A caridade funciona como verniz moral que legitima a exploração.


São as mulheres negras que limpam, cozinham, reorganizam, sustentam e perpetuam o ciclo. Ao preservar a casa branca, preservam a estrutura que as subordina; ao sustentar a família negra, garantem sobrevivência. Eliane não transforma essas mulheres em heroínas redentoras, mostra-as presas numa engrenagem onde o cuidado é também forma de continuidade da ordem. O tema da herança colonial se intensifica sempre que o trabalho aparece ligado à carne, já que a linhagem paterna atravessa charqueadas e frigoríficos, revelando que a industrialização não rompe com o passado escravista, mas o atualiza. O sangue que escorria nas charqueadas reaparece no avental ensopado do frigorífico. A economia regional do sul, frequentemente dissociada do imaginário escravista nacional, é exposta como continuidade da mesma lógica de exploração. A carne é mercadoria; o corpo negro é força que a processa.


O romance nos mostra que o colonialismo infiltra-se nas profissões, nos objetos, nas fotografias, nos modos de falar. A herança é corporal e está nos pés que não se encaixam no sapato, no pano que passa sobre a mesa, no gesto que recomeça o que o patrão deliberadamente sujou. Ao recusar soluções conciliatórias, "Louças de Família" obriga o leitor a encarar a persistência da estrutura da casa branca. E, enquanto essa sustentação permanecer invisível, a metáfora dos ossos continuará operando.



 
 
 

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