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O barulho que existe dentro do silêncio de "Hibisco Roxo", da Chimamanda Adiche

Chimamanda Ngozi Adichie transforma a história de uma família atravessada pela violência em um romance sobre fé, silêncio, pertencimento e a difícil aprendizagem da liberdade.


por thaiane machado

Não há como falar de "Amada"*, sem mencionar a trajetória de Toni Morrisson

Kambili Achike tem quinze anos e vive em Enugu com o irmão Jaja, a mãe Beatrice e o pai Eugene. A família pertence a uma elite econômica nigeriana e, vista de fora, parece cercada por todos os sinais possíveis de segurança e respeitabilidade. Eugene é empresário, filantropo, católico devoto e proprietário do jornal Standard, que enfrenta com coragem um governo militar repressivo. Dentro de casa, entretanto, o mesmo homem que defende publicamente a liberdade estabelece sobre a mulher e os filhos um regime de controle sustentado pelo medo, pela vigilância e por uma interpretação religiosa que transforma qualquer desvio em pecado. É essa contradição que dá ao personagem uma complexidade particularmente incômoda, pois Eugene não precisa ser desprovido de virtudes para ser profundamente violento.


A própria forma do romance nos coloca diante de uma ruptura antes de compreendermos suas causas. Hibisco Roxo começa no Domingo de Ramos, quando Jaja se recusa a receber a comunhão e enfrenta o pai pela primeira vez. Eugene atira seu pesado missal contra o filho, erra o alvo e quebra as estatuetas de porcelana que Beatrice guardava e limpava cuidadosamente. Só depois Chimamanda retorna ao passado para nos mostrar tudo aquilo que precisou acontecer até que um filho fosse capaz de dizer não. A escolha é importante porque transforma toda a leitura numa investigação das condições que tornam a desobediência possível, como se soubéssemos desde o início que aquela casa começará a ruir, mas ainda precisássemos descobrir quando seus moradores começaram a imaginar que talvez pudessem viver entre outros muros.


É Kambili quem nos conduz por esse percurso em que violência doméstica não é narrada a partir de alguém que já conseguiu nomeá-la, mas por uma menina que cresceu dentro de sua lógica. Kambili ama o pai, admira sua inteligência, sente orgulho de sua generosidade e deseja intensamente merecer seu afeto. Por isso, durante boa parte do romance, aquilo que o leitor reconhece como abuso ainda não encontra a mesma palavra dentro dela. O famoso “gole de amor”, o chá quente que Eugene oferece aos filhos e que queima a língua de Kambili, concentra de maneira quase insuportável essa confusão entre carinho e dor. O amor existe, mas foi educado para doer.


Chimamanda encontra uma linguagem precisa para representar essa experiência porque não precisa explicar o tempo inteiro aquilo que está acontecendo. O silêncio faz parte da construção narrativa. Beatrice limpa suas estatuetas depois das agressões, Kambili engole palavras, Jaja e a irmã aprendem a conversar com os olhos e o corpo frequentemente diz aquilo que a família não consegue pronunciar. Os personagens não falam pouco, é que todos aprenderam a medir a própria existência de acordo com o humor de Eugene. Há uma violência que se torna tão habitual que já não precisa anunciar sua chegada, porque todos os móveis da casa, todos os gestos e todas as conversas foram reorganizados em torno da possibilidade de que ela aconteça.


Por isso a viagem a Nsukka é muito mais importante do que uma simples mudança de cenário. Na casa de tia Ifeoma faltam muitas das coisas que existem em abundância em Enugu. Há problemas com água, combustível, dinheiro e a universidade onde ela trabalha atravessa greves e atrasos salariais. Ainda assim, existe naquele apartamento algo que Kambili quase desconhece. As pessoas conversam durante as refeições, discordam, discutem política, fazem brincadeiras, riem alto. Ifeoma exerce autoridade sobre Amaka, Obiora e Chima, mas não precisa exigir submissão para ser respeitada. A diferença entre as duas casas não está, portanto, apenas nas condições materiais, mas na possibilidade de que cada pessoa exista sem precisar desaparecer para que outra mantenha o poder.


É em Nsukka que Kambili começa a conhecer outra maneira de estar no mundo. O contato com Amaka, com o avô Papa-Nnukwu e com padre Amadi quebra as categorias rígidas que Eugene construiu. Até então, havia sido ensinada a dividir a realidade entre aquilo que era cristão e aquilo que era pagão, civilizado ou atrasado, permitido ou condenado. Papa-Nnukwu, tratado pelo filho como alguém espiritualmente perdido, surge diante da neta como um homem afetuoso, engraçado e profundamente conectado à própria tradição. Padre Amadi, por sua vez, é católico sem fazer da fé uma negação da identidade nigeriana - fala igbo, canta, brinca, interessa-se pelas pessoas e mostra a Kambili que religião e alegria não precisam ocupar lados opostos.


É impossível, aliás, falar do fanatismo religioso de Eugene sem falar de colonialismo. Sua conversão não significou apenas aderir ao catolicismo, mas aprender a olhar para parte de sua própria cultura como inferior. O inglês adquire um valor que o igbo não possui, sacerdotes brancos são associados a uma forma mais legítima de religiosidade e as práticas tradicionais são transformadas em sinais de atraso moral. Quando Ifeoma diz que o irmão é “muito colonizado”, não está apenas fazendo uma observação sobre suas preferências culturais. Eugene aprendeu a desejar uma espécie de pureza que exige que ele renegue aquilo de que veio.


Chimamanda é especialmente hábil, porém, em não construir uma oposição simplista entre uma África autêntica e um cristianismo estrangeiro. O romance questiona a transformação de uma experiência religiosa numa linguagem absoluta de poder, afinal Tia Ifeoma também é católica, assim como padre Amadi. Aliás, Papa-Nnukwu e padre Amadi são fundamentais justamente porque reriram os extremos da equação, no qual o primeiro mostra que uma espiritualidade não cristã pode ter profundidade e dignidade, enquanto o segundo mostra que ser cristão não exige abandonar a própria cultura.


Enquanto essa transformação íntima acontece, o romance mantém a Nigéria em primeiro plano. O golpe militar, a censura, a precariedade das universidades, a perseguição aos jornalistas e a morte de Ade Coker, sócio de Eugene no jornal Standard, não são acontecimentos paralelos à vida dos Achike. Existe uma correspondência inquietante entre o autoritarismo público e o doméstico. O governo militar usa o medo para controlar a sociedade, enquanto Eugene usa o medo para controlar a família. A diferença é que Eugene combate um desses sistemas ao mesmo tempo em que reproduz o outro. O homem que financia um jornal disposto a enfrentar a censura é incapaz de admitir contestação à mesa do jantar.


Beatrice também não cabe numa narrativa simples sobre passividade e libertação. Durante quase todo o romance, ela parece existir numa espécie de apagamento, falando baixo, cuidando da casa, tentando sobreviver às agressões e preservando aquilo que consegue preservar. Chimamanda mostra o que pode acontecer quando alguém permanece tempo demais dentro de um lugar onde nenhuma saída parece possível. E então existe o hibisco roxo, essa flor rara que atravessa o livro como uma imagem de tudo aquilo que ainda não existe por completo.


Cultivada experimentalmente no jardim de tia Ifeoma, ela representa uma possibilidade que precisa encontrar condições para crescer. Quando Jaja leva mudas para Enugu, carrega para dentro da casa paterna alguma coisa do mundo que conheceu em Nsukka. Não por acaso, Kambili associa a rebeldia do irmão ao cheiro da liberdade. A flor cresce devagar, como cresce a capacidade dos dois irmãos de imaginar que a obediência talvez não seja a única maneira possível de amar. O final do romance emociona sem recorrer à promessa fácil de que tudo ficará bem. O que existe é Kambili finalmente capaz de olhar para frente e imaginar um futuro, de pensar em viagens, árvores e novos hibiscos. As chuvas que ela pressente não significam que a violência terminou ou que a família está curada, mas que alguma coisa pode voltar a nascer onde antes havia apenas medo.


Chimamanda escreve sobre uma família ferida, mas escreve também sobre aquilo que consegue crescer apesar das feridas. O hibisco roxo é a imagem de uma liberdade conquistada, de uma liberdade que, depois de tudo, finalmente começa a encontrar espaço para existir.



 
 
 

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