top of page

“O Caminho de Casa”, de Yaa Gyasi: o romance que costura trauma histórico e práticas de reparação

O Caminho de Casa transforma genealogia em forma literária e, com isso, sustenta a hipótese central de que a história negra no Atlântico é a história de um dano que se transmuta em instituições modernas.


por thaiane machado

Não há como falar de "Amada"*, sem mencionar a trajetória de Toni Morrisson

"O Caminho de Casa", de Yaa Gyasi, constrói uma tese na própria forma, em que cada capítulo é uma vida inteira em miniatura e a sequência dessas vidas compõe uma árvore genealógica que substitui o “herói” por um conjunto de ramos. Duas irmãs, uma que permanece na Costa do Ouro, outra lançada às Américas, correm em paralelo por mais de duzentos anos para demonstrar que a fratura da diáspora não se fecha com o desembarque, mas se reproduz em instituições, hábitos e linguagem.


A estrutura já anuncia uma arquitetura para que o leitor costure a história e vá entendendo o percurso dessa árvore genealógica. A “Primeira Parte”, com os capítulos-nome Effia, Esi, Quey, Ness, James, Kojo, Abena, tem a abertura das duas gerações em trilhos alternados, da Costa do Ouro até a diáspora nas Américas. É nesta parte que o livro instala o ponto de fratura (Cape Coast, calabouço, porão) e fixa o espelho Gana/EUA. Effia nasce “na noite do incêndio”, enquanto Esi é lançada ao calabouço do castelo e a separação das irmãs constrói a montagem do duplo geográfico e o histórico que guiará todo o romance.


A “Segunda Parte” segue com H, Akua, Willie, Yaw, Sonny, Marjorie, Marcus, deslocando o foco para as formas modernas de controle e para as tentativas de recomposição, no caso dos EUA, do trabalho forçado pós-abolição à cidade e seus cercos; em Gana, da colonialidade tardia às tensões de educação, religião e classe; no presente, o par Marjorie/Marcus reencena a pergunta do “voltar” e da tradução entre ramos. A divisão em duas partes tem a função de apresentar o ferimento inaugural (castelo, calabouço, porão) e o espelho Gana/EUA, enquanto a segunda retrata as continuidades “modernas” do controle (leis, polícia, trabalho forçado, segregação, cidade cercada) e as tentativas de recompor um sentido de pertencimento.


As personagens, suas histórias e dilemas



Gana

EUA

Effia: Nascida na Costa do Ouro, cresce entre os fantis e o poder colonial de Cape Coast. Seu destino a liga aos ingleses e ao castelo do tráfico, onde prosperidade e violência convivem. Inaugura a linhagem que permanece em Gana, marcada por ambivalências com o colonizador.

Esi: Meia-irmã de Effia, é capturada, levada ao calabouço do Castelo de Cape Coast e embarcada rumo às Américas. A travessia quebra língua, parentesco e futuro. Inicia a linhagem que viverá a escravidão e suas continuidades no “Novo Mundo”.

Quey: Filho de Effia, aprende a mediar entre elites locais e britânicos. Cresce dividido entre lealdade à família e as exigências do comércio e do poder. Seu capítulo mostra o preço da negociação com a ordem colonial.

Ness: Descendente de Esi nas plantations, conhece a maternidade sob ameaça constante. Trabalha, resiste e tenta ensinar dignidade aos seus. Sua história evidencia como o cativeiro desfaz famílias e ainda assim não apaga laços.

James: Herdeiro do ramo ganês, vive sob expectativas de alianças e casamento arranjado. Escolhe a ruptura e a fuga para reinventar-se. O capítulo expõe o custo de buscar liberdade num tecido social vigiado.

Kojo: Livre em tese no século XIX americano, vive sob leis e capturas que mudam de nome. Constrói família e trabalho no litoral, mas a instabilidade é regra. Mostra a “liberdade vigiada” do pós-escravidão.

Abena: No interior de Gana, enfrenta escassez, desejo e tradição. Entre a promessa da terra e a necessidade de partir, experimenta escolhas que reordenam o futuro. Seu arco revela o peso social das expectativas sobre as mulheres.

H.: Após a Guerra Civil, cai no ciclo de trabalho forçado e punição “legal”. A força do corpo vira engrenagem econômica. O capítulo denuncia como a escravidão se recicla em novas formas de coerção.

Akua: Assombrada por visões de fogo, carrega no corpo a memória coletiva ferida. Entre religião, culpa e cuidado, tenta proteger os filhos do que a persegue. Sua casa vira o campo onde trauma e cura disputam lugar.

Willie: Na Grande Migração, busca futuro na cidade do Norte. O capítulo mostra os limites do sonho urbano para famílias negras.

Yaw: Professor em Gana, traz uma cicatriz que é arquivo vivo. Discute história e relato: como ensinar sem apagar a dor? Seu texto confronta a memória nacional com a sua história pessoal.

Sonny: Entre militância, música e cidade dura, tenta fazer da política um caminho. Vive rupturas afetivas e tentações que o cercam. O capítulo expõe a exaustão e a persistência do ativismo negro urbano.

Marjorie: Criada entre Gana e EUA, carrega língua e deslocamento. Aprende a traduzir códigos para existir em dois mundos. Sua presença reaproxima os ramos separados séculos antes.

Marcus: Pesquisador nos EUA, tenta entender estruturas de violência atuais. Ao cruzar sua história com a de Marjorie, transforma tese em retorno possível. Fecha o ciclo ao buscar o “caminho de casa”.

James já tinha ouvido essa conversa, ou alguma coisa parecida, muitas vezes antes. Os ingleses já não vendiam escravos para a América, mas a escravidão não tinha terminado, e parecia que seu pai achava que ela não terminaria. Eles simplesmente trocariam um tipo de grilhões por outro: trocariam as correntes físicas enroladas nos pulsos e tornozelos pelas correntes invisíveis que envolviam a mente. James não tinha entendido isso quando era menor, quando a exportação legal de escravos tinha terminado e a ilegal tinha começado, mas agora ele entendia. Os ingleses não tinham a menor intenção de sair da África, nem mesmo quando terminasse o tráfico de escravos. Eles eram donos do castelo e, embora ainda não tivessem dito isso com clareza, pretendiam ser donos da terra também.” (p. 145)

No lado africano, as consequências aparecem primeiro com participação compulsória na economia atlântica, levando a alianças políticas, guerras locais (fantis e axântis) e intermediações com o castelo de Cape Coast que compõem o cenário que leva Esi ao calabouço. Esse porão, com “cheiro que subia pelas paredes”, é imagem de desumanização e dá a medida do que a diáspora destrói. Vemos como o poder colonial, nesse caso da Inglaterra, se faz através de falsas atitudes que mantém a estrutura escravocrata. Os ingleses dizem que não escravizam, mas incitam lutas entre tribos locais para que o tráfico ilegal continue a ser parte da economia local. E mais, intermediam a diáspora, se apropriam das mulheres e criam uma dicotomia clara entre negros e brancos.


No lado americano, a consequência muda de forma, mas não de lógica. A escravidão vira regimes de controle que vão do pós-Guerra Civil ao Jim Crow*. O capítulo de H expõe a transmutação do cativeiro em polícia, cadeia e trabalho forçado, explicitando como a diáspora se torna uma tecnologia de Estado que regula mobilidade, sexualidade e vida negra. Cada geração enfrenta uma versão “legal” da mesma engrenagem. A ideia de liberdade é um sonho distante, uma vez que as leis que regem o que é ser livre são feitas pelos brancos e donos do poder.


“Logo o homem adormeceu. H ficou escutando seus roncos, observando seu peito subir e descer. No dia em que a guerra terminou, H deixou a plantation do seu antigo senhor e começou a andar da Geórgia para o Alabama. Queria novas vistas e novos sons para combinar com a liberdade recém-obtida. Estava tão feliz por estar livre. Todo mundo que ele conhecia estava simplesmente feliz por estar livre. Mas não durou muito." (p. 298-299)

O romance arma um duplo foco para que o leitor veja, ao mesmo tempo, o terremoto e as rachaduras. As grandes violências são as que instituem o mundo (o sequestro atlântico, o calabouço e o porão; a plantation e o regime jurídico que transforma pessoas em propriedade, depois, as leis “modernas” que sucedem a escravidão). As pequenas violências são as que fermentam no cotidiano: a humilhação calculada, o sobrenome que apaga o nome de origem, o olhar que suspeita, o salário que não vem, o empurrão na fila, a fronteira invisível do bairro, a piada “inocente” etc. Nada disso derruba um regime sozinho, mas é o que o mantém de pé. As histórias que atravessam gerações mostram como as grandes violências produzem as pequenas e como as pequenas legitimam as grandes.


Vemos nas histórias que o apagamento aparece de diversas formas. Primeiro, como técnica de poder, onde se apagam nome, língua, parentesco, tempo. A Esí não pode chamar a sua filha de Maame. em homenagem à sua mãe, e é açoitada até que uma palavra em inglês é proferida. O apagamento também é institucional, em que o trabalho escravizado nas plantations viram leis e burocracias que “legalizam” controles. H é um homem livre, até que a polícia o condene por ele olhar para uma mulher branca, ainda que isso nunca tenha acontecido. Gyasi exibe o apagamento curricular, no qual as histórias contadas sobre esse tempo entrega versões limpas, sem sangue, enquanto a experiência familiar carrega cicatrizes e silêncios (quando o livro põe um professor, o Yaw, para discutir memória e ferida, o que está em jogo é a disputa pelo direito de narrar). Há, ainda, o apagamento genealógico, de separações forçadas, “liberdades” vigiadas e migrações repetidas criando falhas de árvore. Como explorar a dor de Kojo quando sua esposa, grávida de 9 meses, é sequestrada e vendida, ainda que ela seja uma mulher livre?


“O Caminho de Casa” trata o colorismo como engrenagem de triagem dentro do racismo, definindo quem entra (ou passa), onde mora, quem canta/quem aplaude ou tem um corpo “aceitável”. No arco da Willie, Gyasi explicita a triagem por tonalidade na cena musical de Nova York, através do teste do saco de papel na porta da casa noturna. “Escura demais… a Jazzing é só para as garotas claras”. O companheiro de Willie, Robert, “agora parecia tão branco” que se dissolvia na multidão do espaço urbano. Ele arranja emprego em duas semanas; ela, “escura demais” para o palco, leva meses para trabalhar como doméstica. Na prática, a cor da pele definindo passabilidade e bloqueios. Até a família negra rica para quem Willie trabalha busca “ficar tão perto dos brancos quanto a cidade permitisse”. Os marcadores de “brancura/negritude” são performativos e punem desvios. Marjorie é ridicularizada por colegas negras, “tu fala como uma garota branca”, e aprende que, nos EUA, “branco podia ser o jeito de uma pessoa falar; ‘negra’ podia ser a música que uma pessoa escutava”. Não é o teste do saco de papel, mas é o mesmo dispositivo classificatório, em que as fronteiras de pertencimento modulam oportunidades e vínculos.


“Willie não era negra como carvão. Tinha visto carvão suficiente na vida para ter certeza disso. Mas, no dia em que Robert Clifton foi com o pai à reunião do sindicato para ouvir Willie cantar, tudo em que ela conseguia pensar era que ele era o garoto negro mais branco que ela já tinha visto. E por ter pensado isso, sua própria pele tinha começado a lhe parecer cada vez mais com a coisa que seu pai trazia das minas para casa, por baixo das unhas, como um pó nas roupas, todo santo dia. [...] O pai era da cor de café, mas Robert era da cor de leite. Willie estava habituada a ver brancos e negros juntos em Pratt City, mas nunca tinha visto as duas cores numa única família, as duas numa única pessoa." (p. 298-299)

Nesse cenário, o livro trata “casa” com quatro peças que, combinadas, montam um pertencimento possível: lugar (aldeia, castelo, plantation, bairro), gente (família e rede), linguagem (nome e idioma) e símbolos (objetos e gestos). Quando o registro oficial falha entram em cena as “casas portáteis”. Ou seja, um colar que atravessa gerações, uma cicatriz que vira escritura do corpo, uma canção que reorganiza a memória na cozinha. É por isso que, no presente da narrativa, voltar não significa restaurar o que foi e sim religar ramos com escolhas concretas. Diante da fratura diaspórica e de suas continuidades, casa deixa de ser cenário e vira memória e vínculo repetido por cada geração até que duas pontas finalmente se toquem.


“Como poderia explicar a Marjorie que ele não deveria estar ali? Vivo. Livre. Que o fato de ele ter nascido, de não estar em alguma cela de cadeia em algum lugar, não decorria de um enorme esforço próprio, não de trabalho árduo nem da crença no sonho americano, mas do mero acaso. Ele só tinha ouvido falar do seu bisavô H através de Ma Willie, mas aquelas histórias bastavam para fazê-lo chorar e para enchê-lo de orgulho. H Duas-Pás era como o chamavam. Mas como eram chamados seu pai ou o pai do seu pai? E as mães? Eles tinham sido produtos do seu tempo. E agora, andando por Birmingham, Marcus era um acúmulo do tempo de todos eles. Essa era a questão." (p. 298-299)

Se há uma aposta estética e política no centro do romance, ela está na equivalência entre forma e argumento. A escolha por capítulos-retrato, a alternância de vozes, o fechamento “em aberto” de cada vida e a simetria entre linhagens produzem mais que emoção. O livro pede que quem lê identifique as placas novas do mesmo mecanismo, reconheça as pequenas violências que cimentam o dia a dia e, sobretudo, observe as práticas de reparo possíveis. Quando duas pontas se tocam no fim, é a confirmação de que, diante de uma máquina feita para nos deixar sem passado, “casa” se com aquilo que restou e com aquilo que se escolhe transmitir.


Nosso primeiro encontro de 2026
Nosso primeiro encontro de 2026

*As leis Jim Crow foram um conjunto de leis estaduais e locais nos Estados Unidos, ativas aproximadamente entre 1877 e 1964, que impuseram a segregação racial nos estados do Sul. Baseadas no princípio "separados, mas iguais", essas normas separavam brancos e negros em escolas, transporte e locais públicos, visando manter a supremacia branca e foram abolidas pela Lei dos Direitos Civis de 1964



 
 
 

Comentários


bottom of page